BPRS — Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica

Escala aplicada pelo entrevistador. Itens de relato do paciente são pontuados pelo que o paciente conta sobre o período avaliado (em geral, a última semana); itens de observação (3, 4, 6, 7, 13, 14, 16, 17 e 18), pelo que se observa durante a entrevista.

Início da entrevista (use também para o item 18): Qual seu nome completo? E sua idade? Onde você mora? Está trabalhando atualmente? (Já trabalhou anteriormente? Em quê?) Quanto tempo faz que você está aqui? Conte-me por que motivo você foi internado. Quando isso começou? O que aconteceu depois? Você pode me dizer que dia é hoje (semana-mês-ano)?

Relato do paciente

1. Preocupação somática

Grau de preocupação com a saúde física. Avaliar o grau no qual a saúde física é percebida como um problema pelo paciente, quer as queixas sejam baseadas na realidade ou não. Não pontuar o simples relato de sintomas físicos. Avaliar apenas apreensão (ou preocupação) sobre problemas físicos (reais ou imaginários).

Pergunta-guia

Como costuma ser sua saúde física (do corpo)? Como esteve sua saúde no último ano? Você está preocupado com algum problema de saúde agora? Você sente que tem alguma coisa incomum acontecendo com seu corpo ou cabeça?

Relato do paciente

2. Ansiedade

Preocupação, medo ou preocupação excessiva acerca do presente ou futuro. Pontuar somente a partir de relato verbal das experiências subjetivas do paciente. Não inferir ansiedade a partir de sinais físicos ou mecanismos de defesa neuróticos. Não pontuar se restrito a preocupação somática.

Pergunta-guia

Você está preocupado com alguma coisa? Você tem se sentido tenso ou ansioso a maior parte do tempo? (Quando se sente assim, você consegue saber o porquê? De que forma suas ansiedades ou preocupações afetam o seu dia a dia? Existe algo que ajuda a melhorar essa sensação?)

Observação do paciente

3. Retraimento afetivo

Deficiência no relacionamento com o entrevistador e na situação da entrevista. Manifestações evidentes dessa deficiência incluem: falta de contato visual (troca de olhares); o paciente não se aproxima do entrevistador; apresenta uma falta de envolvimento e compromisso com a entrevista. Diferenciar de AFETO EMBOTADO, no qual são pontuadas deficiências na expressão facial, gestualidade e tom de voz. Pontuar a partir de observações feitas durante a entrevista.

Observação do paciente

4. Desorganização conceitual

Grau de incompreensibilidade da fala. Incluir qualquer tipo de desordem formal de pensamento (por exemplo, associações frouxas, incoerência, fuga de ideias, neologismos). NÃO incluir mera circunstancialidade ou fala maníaca, mesmo que acentuada. NÃO pontuar a partir de impressões subjetivas do paciente (por exemplo, “meus pensamentos estão voando”, “não consigo manter o pensamento”, “meus pensamentos se misturam todos”). Pontuar SOMENTE a partir de observações feitas durante a entrevista.

Relato do paciente

5. Sentimentos de culpa

Preocupação ou remorso desproporcional pelo passado. Pontuar a partir das experiências subjetivas de culpa evidenciadas por meio de relato verbal. Não inferir sentimentos de culpa a partir de depressão, ansiedade ou defesas neuróticas.

Pergunta-guia

Nos últimos dias você tem se sentido um peso para sua família ou colegas? Você tem se sentido culpado por alguma coisa feita no passado? Você acha que o que está passando agora é um tipo de castigo? (Por que você acha isso?)

Observação do paciente

6. Tensão

Avaliar inquietação motora (agitação) observada durante a entrevista. Não pontuar a partir de experiências subjetivas relatadas pelo paciente. Desconsiderar patogênese presumida (por exemplo, discinesia tardia).

Observação do paciente

7. Maneirismos e postura

Comportamento motor incomum ou não natural. Pontuar apenas anormalidade de movimento. NÃO pontuar aqui simples aumento da atividade motora. Considerar frequência, duração e grau do caráter bizarro. Desconsiderar patogênese presumida.

Relato do paciente

8. Ideias de grandeza

Autoestima (autoconfiança) exagerada ou apreciação desmedida dos próprios talentos, poderes, habilidades, conquistas, conhecimento, importância ou identidade. NÃO pontuar mera qualidade grandiosa de alegações (por exemplo, “sou o pior pecador do mundo”, “todo o país está tentando me matar”) a menos que a culpa/persecutoriedade esteja relacionada a algum atributo especial exagerado do indivíduo. O paciente deve declarar atributos exagerados; se negar talentos, poderes, etc., mesmo que afirme que outros digam que ele possui tais qualidades, este item não deve ser pontuado.

Pergunta-guia

Nos últimos dias você tem se sentido com algum talento ou habilidade que a maioria das pessoas não tem? (Como você sabe disso?) Você acha que as pessoas têm tido inveja de você? Você tem acreditado que tenha alguma coisa importante para fazer no mundo?

Relato do paciente

9. Humor depressivo

Relato subjetivo de sentimento de depressão, tristeza, “estar na fossa”, etc. Pontuar apenas o grau de depressão relatada. Não pontuar inferências de depressão feitas a partir de lentificação geral e queixas somáticas.

Pergunta-guia

Como tem estado seu humor (alegre, triste, irritável)? Você acredita que pode melhorar? (Como esse sentimento tem afetado seu dia a dia?)

Relato do paciente

10. Hostilidade

Animosidade, desprezo, agressividade, desdém por outras pessoas fora da situação da entrevista. Pontuar somente a partir de relato verbal de sentimentos e atos do paciente em relação aos outros. Não inferir hostilidade a partir de defesas neuróticas, ansiedade ou queixas somáticas.

Pergunta-guia

Nos últimos dias você tem estado impaciente ou irritável com as outras pessoas? (Conseguiu manter o controle? Tolerou as provocações? Chegou a agredir alguém ou quebrar objetos?)

Relato do paciente

11. Desconfiança

Crença (delirante ou não) de que outros têm agora ou tiveram no passado intenções discriminatórias ou maldosas em relação ao paciente. Pontuar apenas se o paciente relatar verbalmente desconfianças atuais, quer elas se refiram a circunstâncias presentes ou passadas.

Pergunta-guia

Você tem tido a impressão de que as outras pessoas estão falando ou rindo de você? (De que forma você percebe isso?) Você tem achado que tem alguém com más intenções contra você ou se esforçado para lhe causar problemas? (Quem? Por quê? Como você sabe disso?)

Relato do paciente

12. Comportamento alucinatório (alucinações)

Percepções (em qualquer modalidade dos sentidos) na ausência de um estímulo externo identificável. Pontuar apenas as experiências que ocorreram na última semana. NÃO pontuar “vozes na minha cabeça” ou “visões em minha mente” a menos que o paciente saiba diferenciar entre essas experiências e seus pensamentos.

Pergunta-guia

Você tem tido experiências incomuns que a maioria das pessoas não tem? Você tem escutado coisas que as outras pessoas não podem ouvir? (Você estava acordado nesse momento? O que você ouvia - barulhos, cochichos, vozes conversando com você ou conversando entre si? Com que frequência? Interferem no seu dia a dia?) Você tem visto coisas que a maioria das pessoas não pode ver? (Você estava acordado nesse momento? O que você via - luzes, formas, imagens? Com que frequência? Interferem no seu dia a dia?)

Observação do paciente

13. Retardamento motor

Redução do nível de energia evidenciada por movimentos mais lentos. Pontuar apenas a partir de comportamento observado no paciente. NÃO pontuar a partir de impressões subjetivas do paciente sobre seu próprio nível de energia.

Observação do paciente

14. Falta de cooperação com a entrevista

Evidência de resistência, indelicadeza, ressentimento e falta de prontidão para cooperar com o entrevistador. Pontuar exclusivamente a partir das atitudes do paciente e das reações ao entrevistador e à situação de entrevista. NÃO pontuar a partir de relato de ressentimento e recusa à cooperação fora de situação de entrevista.

Relato do paciente

15. Alteração de conteúdo do pensamento (delírios)

Gravidade de qualquer tipo de delírio. Considerar convicção e seu efeito em ações. Pressupor convicção total se o paciente agiu baseado em suas crenças.

Pergunta-guia

Você tem acreditado que alguém ou alguma coisa fora de você esteja controlando seus pensamentos ou suas ações contra a sua vontade? Você tem a impressão de que o rádio ou a televisão mandam mensagens para você? Você sente que alguma coisa incomum esteja acontecendo ou está para acontecer?

Observação do paciente

16. Afeto embotado

Responsividade afetiva diminuída, caracterizada por déficits na expressão facial, gestualidade e tom de voz. Diferenciar de RETRAIMENTO AFETIVO, no qual o foco está no comprometimento interpessoal mais do que no afetivo. Considerar grau e consistência no comprometimento. Pontuar a partir de observações feitas durante a entrevista.

Observação do paciente

17. Excitação

Tom emocional aumentado, incluindo irritabilidade e expansividade (afeto hipomaníaco). Não inferir afeto de afirmações a partir de delírios de grandeza. Pontuar a partir de observações feitas durante a entrevista.

Observação do paciente

18. Desorientação

Confusão ou falta de orientação adequada em relação a pessoas, lugares e tempo. Pontuar a partir de observações feitas durante a entrevista.

Pergunta-guia

Use as perguntas do início da entrevista. Você tem conseguido se concentrar? Como está sua memória? (Caso necessário, faça exame específico.) Reentrevista: Você pode me dizer que dia é hoje (semana-mês-ano)? Você pode me dizer o que tinha ontem no jantar?

BPRS — Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica

A BPRS (Brief Psychiatric Rating Scale), criada por Overall e Gorham em 1962, é uma das escalas mais usadas para medir a gravidade de sintomas psiquiátricos, sobretudo em esquizofrenia e outras psicoses. Esta é a versão ancorada de Woerner et al. (1988), traduzida por Romano e Elkis (1996): cada item tem uma descrição para cada nível de gravidade e perguntas-guia para a entrevista.

Quem aplica

Médico ou profissional de saúde mental treinado, em entrevista com o paciente adulto. Não é uma escala de autopreenchimento.

Instruções

São 18 itens pontuados de 0 (não relatado ou não observado) a 6 (muito grave). Os itens de relato do paciente são pontuados pelo que ele conta sobre o período avaliado, em geral a última semana. Os itens de observação (3, 4, 6, 7, 13, 14, 16, 17 e 18) são pontuados pelo que se observa durante a entrevista.

Como o resultado é calculado

O escore total é a soma dos 18 itens (0 a 108). Também são calculados os cinco fatores clássicos de Overall e Klett e as subescalas de sintomas positivos e negativos.

GrupoItens
Ansiedade/Depressão1, 2, 5, 9
Anergia3, 13, 16, 18
Alteração do pensamento4, 8, 12, 15
Ativação6, 7, 17
Hostilidade/Desconfiança10, 11, 14
Sintomas positivos4, 11, 12, 15
Sintomas negativos3, 13, 16

Como interpretar

A BPRS não tem ponto de corte diagnóstico. Leucht et al. (2005) compararam o total com a impressão clínica global (CGI) em pacientes com esquizofrenia. Convertendo para itens de 0 a 6, um total perto de 13 corresponde a “levemente doente”, 23 a “moderadamente doente” e 35 a “acentuadamente doente”. A escala é mais útil para acompanhar o mesmo paciente ao longo do tempo: em estudos clínicos, a resposta ao tratamento costuma ser definida como queda de 20% a 50% no total.

Atenção

A BPRS mede a gravidade dos sintomas e não faz diagnóstico. O resultado deve ser interpretado por um profissional habilitado, junto com a história clínica e o exame do paciente.

Bibliografia

  • Overall JE, Gorham DR. The Brief Psychiatric Rating Scale. Psychol Rep. 1962;10:799-812.
  • Woerner MG, Mannuzza S, Kane JM. Anchoring the BPRS: an aid to improved reliability. Psychopharmacol Bull. 1988;24(1):112-7.
  • Romano F, Elkis H. Tradução e adaptação de um instrumento de avaliação psicopatológica das psicoses: a Escala Breve de Avaliação Psiquiátrica – versão ancorada (BPRS-A). J Bras Psiquiatr. 1996;45(1):43-9.
  • Overall JE, Klett CJ. Applied multivariate analysis. New York: McGraw-Hill; 1972.
  • Leucht S, Kane JM, Kissling W, Hamann J, Etschel E, Engel R. Clinical implications of Brief Psychiatric Rating Scale scores. Br J Psychiatry. 2005;187:366-71.